quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Frustrante

Preguiçosamente me levantei da cama essa manhã, como de costume.
Dei uma espiada pela janela e pude ver o Sol ofuscante brilhando sobre o asfalto. Fui até o quintal dos fundos de casa, peguei minha toalha e voltei para o banheiro, a fim de tomar banho para despertar de uma vez.
Enquanto a água escorria pelos meus cabelos pensava em quanta vida eu perderia em um dia lindo como esse, trancada dentro de um escritório de onde eu só poderia ver um pedacinho do céu azul brilhando límpido lá fora. Fora do meu alcance.
Deixei os pensamentos divagarem e tentei me concentrar naquele momento. No momento mais sozinho do meu dia, o meu banho. Eu adorava ficar de porta fechada no banheiro, sentindo o cheiro de maçã verde do sabonete se misturando com o calor da água que se condensava na parede, mas é impressionante como até mesmo nesse momento não consigo ficar sozinha.
Menos de dez minutos depois do início do banho, escuto a porta ranger ao se abrir, enquanto minha mãe atravessa banheiro à dentro.
- Bom dia, filha! – interessante como ela sempre estava de bom humor, não importava quão cedo acordasse.
Eu nunca respondia ao “Bom dia” acho até que meus neurônios demoravam em acordar, mais do que o meu corpo para levantar da cama, ou talvez fosse só preguiça. Sem resposta, ela saiu do banheiro.
Depois de pouco mais de mais dez minutos desliguei o chuveiro, escorri meu cabelo me sequei e me enrolei na toalha longa, espessa e amarela, a minha preferida.
Sai do banheiro, deixei porta e janela abertas para desembaçar o espelho e me direcionei ao último cômodo da casa, ainda em reformas inacabadas, para escolher a roupa que trabalharia durante o dia todo.
“Ai que tédio!” pensava enquanto escolhia uma entre as três calças pretas quase que idênticas e as infinitas camisas brancas que combinavam monotonamente entre si. Somente nessas horas me dava conta do quanto precisava mudar de vida.
Eu queria usar vestidos de seda coloridos e passear no parque em uma tarde linda como essa. Deixar meu cabelo despender do coque e esvoaçar com o vento enquanto observava o farfalhar das folhas cintilantes sob os raios de Sol.
Sentar sob a sombra de um pinheiro e ler um livro. Apaixonar-me pela vida em seu mais alto grau de comprometimento.
Eu queria viver com todas as cores de vida que meus olhos pudessem enxergar e não somente existir como uma empregada em branco e preto. Estava simplesmente conformada com essa condição, mas não acomodada.
Dentro de mim tinha uma voz que gritava “Salve-se pelo amor de Deus!” e fora de mim os olhos no relógio acusavam meu atraso “Saco!”.
- Tchau, mãe! – berrei enquanto saia correndo pela porta da sala, pendurando a bolsa no ombro.
Ao sair à rua, contemplar aquele Sol magnânimo fez com que eu fechasse os olhos instintivamente e quase, por um momento, perdesse o foco. Quase desisti de seguir como um cordeiro pelo pasto por impulso, seguindo o rebanho, vestindo a máscara da alienação e voltei para casa calcei meus patins e sai por aí correndo os riscos dos tombos e ferimentos. Correndo o risco de ser plena e simplesmente feliz. Quase!
Abri os olhos novamente, depois de absorver aqueles minutos de sonho e claridade e voltei ao meu caminhar apressado e rotineiro, rumo ao ganha-pão de cada dia.

Nenhum comentário: