sexta-feira, 10 de julho de 2009

Michele

Quando olhava profundamente em seus olhos mel, lembrava quase que de forma proposital daquela noite em que passamos horas falando sobre homens e questionando seu comportamento.
Ela era linda, pelo menos para mim. E eu não conseguia entender por que seus relacionamentos não davam certo com ninguém. O que os homens esperam mais, além de uma mulher linda, inteligente, divertida e boa de cama? Era uma questão difícil de responder.
Sempre que analisava seu rosto de formato quadrado, suas feições, seu sorriso de lábios finos - ou boca “rasa”, como ela mesma dizia - eu encontrava uma alegria profunda misturada com uma enorme tristeza, talvez uma frustração ou um desejo de “quero mais” que ninguém nunca soube corresponder. Talvez fosse um leve arrependimento por algo que já fizera na vida. Talvez fosse saudade de uma vida que nunca fora dela.
Mas eu entendia perfeitamente seus sentimentos.
Consequência de um comportamento atemporal.
O mundo hipócrita no qual vivemos não combina com sua essência. Tão independente quanto é, tão decisiva e cheia de vida. O mundo não era para ela. Não esse mundo, não essa época. Mas tenho certeza que é por causa de mulheres como ela, que o mundo está mudando. Que os pensamentos mudarão.
Vai demorar, talvez séculos ou milênios para que o machismo caia por terra, deixando que a mulher moderna tome seu espaço sem ser tachada ou menosprezada.
Para mim, ela não era nada do que o resto do mundo podia pensar. Eu a amava. Enxergava nela um ícone, um símbolo, um exemplo. Absolutamente correta em qualquer atitude que tomasse. Eu a conhecia intimamente. Poderia talvez até julgá-la, se quisesse, mas não acredito que ela mereça julgamentos.
Limito-me apenas a admirá-la, pois ela mudara minha vida totalmente desde que nos aproximamos. Fez com que houvesse uma mutação da água para o vinho em minhas atitudes e postura.
A transformação de menina para mulher, eu sofri ao lado dela. E não tenho como agradecê-la à altura. Michele, é minha prima mais carinhosa, talvez. Uma das mais lindas, e é espetacularmente singular em seus olhos vibrantes e marcantes num tom de mel madeirado. Uma mulher alta, loira de curvas acentuadas. Extremamente sensual.
Sempre que a fitava profundamente me perdia em meio a admirações. Eu não sabia expressar o quanto a amava, era quase uma paixão platônica. E me confortava ter sua presença tão de perto, sentia que ela era quase como uma extensão do meu corpo, do meu próprio eu. Tínhamos uma sincronia de pensamentos e atitudes que fluía naturalmente.
Lembrando daquela noite no quarto, me veio sua imagem numa de minhas camisolas rosa, que eu havia lhe emprestado. Ela levantando da cama subitamente para se sentar e me olhar de frente, de forma a dar continuidade à discussão.
Os cabelos compridos, volumosos e levemente despenteados, despendiam ondulando através do ombro num tom de loiro castanho, combinando perfeitamente com sua pele morena e sua sobrancelha fina. No rosto um traço de quase indignação, com tudo o que falávamos. Até aquele momento, não havia prestado atenção em como ela podia ser surpreendentemente admirável em sua beleza. Todos os meus pensamentos fugiram da cabeça naquele momento e inconscientemente me limitei a uma simples exclamação:
- Como você é linda!
A frase escapou involuntariamente da garganta e quem possuía a expressão de indignação dessa vez era eu. Ela sorriu satisfeita, parecendo aquietar suas dúvidas.

Um comentário:

chele787 disse...

o meu conforto é saber que você sabe realmente quem sou e saber o que te amooo muito sempre...você me dá o alívio em meia confusão...obrigada por exisitir e por me fazer sentir normal..