Realmente uma moleca!
Ela andava toda descontraída por aí. Nem se importava com as pedras no caminho, os buracos na rua ou com as calçadas em reforma. Podia estar maquiada ou não, simplesmente não se importava. Sentia-se bonita e feia às vezes, tudo reflexo do seu humor oscilante, mas não perdia o leve sorriso sempre estampado nos lábios.
“Quarta-feira, dia de jogão” pensava ela distraída. Estava empolgada.
Parara habitualmente na barraquinha ao lado do seu trabalho para tomar seu café da manhã:
- Café com leite e um pão com ovo, por favor, Marcão!
O Sr. Marcos assentia e preparava o que ela queria com a maior satisfação.
- Hoje tem jogo hein, Marcão. Animado?
Ele acenou com a cabeça dizendo que sim, e ela sabia que ele se importava mais por ter uma desculpa para tomar cerveja no meio da semana. Ela riu consigo mesma.
Dera início às discussões com os outros clientes ao redor, em sua maioria homens e eles se divertiam com ela. Sempre espontânea.
- Vai sair um gol do Dentinho e outro do Ronaldo. Não pode faltar gol do Ronaldo em uma final tão importante – dizia num tom autoritário – Ano que vem é Timão na Libertadores... Não tenho muita esperança de que consigamos alguma coisa, mas estar lá já é uma coisa relevante.
Eles riam dela e davam continuidade ao assunto despreocupadamente.
- Vamos rir o quanto podemos hoje, porque amanhã não sabemos se vamos continuar felizes! – dizia Rafael.
- Ah... pelo amor de Deus! O Corinthians deve fazer um gol logo no primeiro tempo para nos tranquilizar, depois disso, vamos aguardar o show. Não basta a final do ano passado contra o Sport? Esse ano eu não aceito nada menos que o título! – disse ela terminantemente, com o sorriso zombeteiro nos lábios.
Não era à toa que as pessoas se sentissem atraídas por ela, ela tinha uma aura boa, um magnetismo positivista. Um rosto branco de traços leves e bochechas rosadas. Olhos azuis atentamente sinceros. O Sr. Marcos já havia dito a ela que muitos de seus clientes se confessaram apaixonados por ela e ele não se admirou com isso.
Ela sorria para esses comentários esquivando-se sutilmente. Especialmente abrangendo esse assunto podia-se enxergar perfeitamente uma sombra de tristeza atravessar seu rosto.
Uma pontada leve em seu coração que não durava mais que um piscar de olhos. Ela aprendera a lidar com isso com maestria. Ainda incomodava, provavelmente incomodaria sempre, mas já não era mais aquela dor que lhe dilacerava até os pensamentos.
Simpática, ela se despediu:
- Bom dia, para vocês. Vamos torcer pro Timão hoje viu? Raça Timão!
Enquanto se virava, distanciando-se da barraca, cuidava de recolher a sombra em seu rosto e recompor sua pose de moleca, por trás do sorriso não mais que casual.
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