sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Terra do Nunca

O Sol se punha imponente no horizonte, então chegávamos ao fim de mais um dia. O ar estava úmido e o tempo abafado, dava pra sentir a chuva se aproximando.
Sentada no degrau da porta da frente da casa da minha vó, eu observava o vento movimentando levemente as folhas das árvores. As pessoas cuidadosamente vestidas de branco, desciam a rua calmamente, sentido à praça central (a única da cidade) para celebrar a última missa do ano, na igreja que ficava no meio da praça.
Observando a rua principal, até o final podíamos ver uma imensidão verdejante dos campos das fazendas ao final da cidade. Plantações que brilhavam sob o pôr do Sol, pareciam agradecer a chuva que vagarosamente vinha do sul e aos poucos começava a molhar a rua. Um leve cheiro de terra molhada penetrava meus poros e narinas. Eu adorava tudo aquilo.
Aquela cidade era simplesmente tranqüila, com todos aqueles velhinhos risonhos e outros rabugentos, com a falta do que fazer, sem a preocupação do que deve ser feito no dia seguinte.
As pessoas que eu conhecia, algumas há quase dez anos, pareciam nunca envelhecer, tinham há anos o mesmo rosto, as mesmas manias, o mesmo jeito de falar.
Eu ficava pensando nisso enquanto estava sentada naquele velho degrau de sempre. As paredes das casas estavam precisando de uma nova pintura. O comércio parecia não mudar nunca. Não havia necessidade de mudanças naquele lugar. Cada dia era apenas mais um dia. Sem obrigações, sem envelhecimentos, sem nada.
Ali parecia que todas as pessoas nunca precisavam se preocupar com nada, somente com o que fariam com seu sábado à noite. Não precisavam mudar nada em si mesmas nem em seus hábitos. Nunca havia preocupação, nem obrigações. Nunca era hora do trabalho, nem de crescer. Nem de tornarem-se sérios demais à ponto de pensar somente em dinheiro. Havia outras coisas à fazer.
Já era noite, e eu nem me dera conta de quanto tempo passara observando cada centímetro da cidade e das pessoas ao meu redor. A chuva com seu ritmo desacelerado e sinfônico havia cessado deixando o céu aberto completamente escuro alvejado de estrelas. Nunca havia visto céu mais lindo que o daquele lugar. Nenhum minúsculo cantinho do céu estava abandonado pelo brilho intenso das estrelas. Era mágico.
O cheiro da cidade que nunca mudara, as pessoas e seu caminhar sempre os mesmos. A despreocupação evidente no sorriso de cada um... era uma autêntica cidade do interior. Sem poluição sonora, nem visual, nem respiratória e ainda existe gente que não entende porque eu gosto tanto daquela cidade perdida no tempo.
Mas já era tarde, eu precisava tomar banho e me arrumar para mais um Reveillon com as mesmas superstições de todos os anos. Roupas brancas, cabelo impecável, maquiagem leve, creme hidratante, perfume, calcinha amarela pra trazer dinheiro, que é a única coisa que não me satisfaz atualmente, e bastante vontade de fazer um Ano Novo diferente.
As esperanças se renovam a cada novo ano que se levanta, e eu permaneço contando os feriado para poder voltar sempre que possível pra Nova Europa, a cidade que sempre dorme seu sono de beleza. A minha Terra do Nunca.

2 comentários:

Roberto Leme disse...

Gostei!

André Ucci disse...

Eh.. eu concordo com a calma.. mas obviamente por eu morar aqui.. e vc nao.. temos visoes diferentes do mesmo lugar.. eu desceveria a chuva como uma maldiçao lançada por deuses sedentos de sangue.. o verde das fazendas como campos semeados de imaturidade.. as estrelas, todas elas o mais distantes possiveis desse lugar.. a terra do nunca.. onde nunca tem nada pra se fazer.. rs.. bjos