Engraçado como todos os dias tenham amanhecido ensolarados, embora frios, nas últimas semanas e hoje, especialmente, o céu esteja completamente nublado.
Talvez a culpa seja minha, pois o tempo insiste em acompanhar meu senso de humor feito aqueles anéis que mudam de cor conforme nosso estado de espírito.
Acordara sem lamentações, sem vontade de continuar na cama. Fui até o banheiro e em meu reflexo não reconhecia meus olhos azuis. Combinava estranhamento com o resto do rosto apático, sem brilho, sem nada.
Terminei de me arrumar e saí. O percurso fora completamente indistinto.
No metrô, retomei minha leitura de “O Morro dos Ventos Uivantes” e a cada página, Heathcliff parecia-me cada vez mais íntimo.
Era um homem cheio de amarguras que o tornara ainda mais desprezível. Não fossem todos os traumas de infância, quem sabe não seria um homem melhor? Menos rude, menos orgulhoso, mais refinado. De longe era o personagem que mais mexera comigo.
Ele me movia do ódio à compaixão. E tinha traços tão comuns àquele que eu conhecia tão profundamente.
Parei minha leitura e retomei meus pensamentos ainda sem emoção. Levantei meu olhar para a janela, examinando ao redor. Não havia familiaridade em nada daquilo. Um dia triste de inverno como muitos outros que virão. Exatamente igual a todos os outros odiosos.
Somente uma única pessoa poderia me tirar do profundo poço, escuro e frio, no qual me encontrava agora. Mas parecia-me que ele deveria ser um parente distante e igualmente orgulhoso de Heathcliff.
Eu não tinha muitas esperanças, também não tinha mais forças, no momento. Estava disposta a esperar dentro desse poço, o inverno passar. Esperava piamente que com o passar do inverno minhas dores fossem embora junto. Embora essas já nem me doessem tanto. A tristeza que me doía agora era tão amena quanto os raios de sol dessa época do ano. Era até bonito. Uma beleza melancólica. Como a última flor que restara à chegada do outono.
Eu tinha em mim a esperança de vê-lo ser maior que seu orgulho. Tinha a esperança de ver sucumbir sua maldade em frente ao amor que sentia. Esperança essa causada pelo olhar que lançava sobre mim. Quase que uma súplica de não abandono, um pedido de mais tolerância de minha parte.
Receio não ser tão forte assim, e não prevalecer sobre as admoestações. Encontrava-me fraca e humilhada em meio ao meu próprio penar. Doía-me muito vê-lo daquela maneira mas, sabia ao mesmo tempo, que se eu abdicasse do meu direito, seria escrava de seu orgulho para sempre.
Gostaria muito de vê-lo emergir ao caráter duvidoso que assumia por vezes, e tornar-se uma pessoa amável que desse mais importância aos sentimentos de prazer e amor que ao de ódio e orgulho. Sentia que podíamos ser mais felizes se aprendêssemos a lidar melhor com isso. Mas não era uma guerra só minha, talvez nem fosse minha, e eu não quero mais assumi-la.
Por enquanto ficarei aqui, contemplando o céu cinzento, relembrando suas feições sombrias e esperando que ele dê um passo maior que o de seu orgulho fútil e vaidoso porque infelizmente eu não poderei fazer mais absolutamente nada que não seja me acostumar com essa dor, tão comum a mim, e com todas as incertezas que me assaltavam.
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