Ultimamente queria deixar as coisas acontecerem como quisessem.
Eu não tinha grandes exigências, nem nada que me exigisse muito esforço e concentração para me manter desviada dos meus pensamentos inconseqüentes. Mantinham-me ocupada da maneira que podia.
Tentei fazer um caminho diferente na volta para casa, peguei um ônibus na Sabará, uma avenida que eu nunca utilizava. Praça da Árvore, o ônibus em questão, comecei a viagem. Nas mãos meu livro novo, mal começara a ler e já estava na página 86. Era simples me manter entretida em assuntos relacionados a amor, decepção, relacionamento e impossibilidade.
Vez ou outra espiava as ruas pela janela. Fiz um tour por Indianópolis. Estava passando pela rua dos Jurupis, quando encontramos a esquina com a avenida dos Imarés, logo reconheci o local. Estava em frente ao Buffet Torres, o mais imponente de São Paulo.
Era impossível não reconhecer sua arquitetura de padrão americano, plenamente simétrica, com as paredes altas e cobertas por trepadeiras.
Os portões estavam abertos e dava para ver a passagem dos carros, rodeando o caminho, havia canteiros de um verde oliva impecavelmente aparados. E me deu saudade da festa mais robusta que já fora na vida.
Há alguns anos, quando eu estava no Primeiro Ano do Ensino Médio, era época das festas de 15 anos. O auge da adolescência e eu dera a sorte de cair na sala da garota mais rica do colégio, Daniele Sodré, jamais esquecera de seu nome.
Ela era comedida e muito simpática. Morena de cabelos lisos na altura dos ombros. Um sorriso bastante simpático, o uniforme cinza, branco e vinho, sempre impecável. Não chegamos a nos tornar amigas, mas eu tinha uma empatia compreensível por ela.
A festa foi deslumbrante, digna de uma cena de cinema. O salão repleto de requinte e bom gosto combinavam excessivamente com seu jeito. Naturalmente eu era mais uma na multidão.
Todas as pessoas vestidas elegantemente com seus trajes formais. Mulheres de vestidos longos e cabelos bem feitos. Homens de ternos caros e caimento perfeito. Eu adorava estar ali.
Mas meu devaneio passara e eu nem percebera que já estávamos em uma outra avenida completamente desconhecida. Talvez eu já tivesse passado por ali, mas não houvera nada de marcante a ser lembrando. Senti o livro pesando em meu colo, me chamando para retomá-lo. Sentido e feito. Mas devo assumir que a leitura não colaborava muito.
A cada nova frase lida, mais pesares vinham na mente. Eu sabia exatamente o motivo de todo o meu desânimo, de todo desconforto. E era uma coisa que guardaria, não havia ninguém apto a entender.
Desci no ponto final e caminhei sob uma leve garoa até o metrô. Ocupei meu lugar em um assento qualquer e continuei com a leitura. Não era possível ser tão patética. Deixei que as lágrimas embaçassem meus olhos, dificultando a leitura com o sofrimento comedido de Jacob, o lobisomem da trama. Pisquei compulsivamente esperando que as lágrimas fossem absorvidas novamente, mas era tarde demais, elas escorreram pelo meu rosto assim que olhei para cima. Traidoras.
Minha mente cheia de pensamentos teatrais. Engraçado que ao me dedicar à leituras meus pensamentos tornem-se frases absolutamente organizadas, deixam de ser cenas desconexas vagando sem propósito, numa mente oca.
Comecei a pensar em mim, na pessoa que sou, e de repente tudo fazia sentido. Eu era completamente romântica e infeliz por isso. Não sabia ver as estações do ano e pensar nelas como uma ciência exata. Era impossível ver o céu e outros predicados da natureza e não atribuir adjetivos urgentemente.
Meus sentimentos ardem dentro de mim como um vulcão prestes a entrar em erupção. E eu entendi perfeitamente tudo isso hoje. Eu sou uma pessoa terrivelmente apaixonada. Sou apaixonada pelo meu próprio romantismo imbecil.
Eu floreio as ruas mais do que devo e vejo o Sol brilhando mais sorridente do que é para muitas outras pessoas. Até a melancolia de um dia nublado pirraça sua beleza pra cima de mim, nos meus dias mais insípidos.
Viver de pensamentos românticos e sonhos não era lá muito saudável, mas eu não sabia ser de outra maneira. Queria personificar as pessoas nos meus anseios, queria que elas fossem parte da minha loucura, do meu desejo de ver a realidade num conto de fadas de um livro sem fim.
Eu queria encontrar o meu príncipe encantado parado num ponto de ônibus, sentando na mesa de uma bar, caminhando pelo shopping, andando de bicicleta no meio do parque. Eu queria que meu príncipe encantado surgisse com uma rosa nas mãos e me dissesse palavras doces com seu hálito de menta pinicando meu rosto.
Queria ter alguém que me admirasse mais do que o necessário e quisesse construir um castelo para mim. Que ele olhasse nos meus olhos e se maravilhasse com seu tom de azul, a cada manhã que acordássemos juntos. Não era de se admirar que eu já tivesse me apaixonado e me decepcionado tantas vezes durante meus breves anos de vida, mas eu tenho o hábito de atribuir às pessoas as qualidades que eu gostaria que lhes pertencesse. Isso colaborava com o amor. Irremediavelmente romântica. Podia sentir meu desapontamento tingindo essas palavras. Eu jamais encontraria uma pessoa que pudesse me dar tudo o que eu clamo dessa minha maneira tão imbecil e isso não me tornava infeliz, porque eu era correspondida pelo meu amor próprio. Ninguém merecia penar por causa da minha mente perturbada.
Eu era pra mim tudo o que eu precisava. Amar meu romantismo aumentava meu amor próprio. Não diminuía minhas decepções, nem meus desejos, mas não era de todo ruim. Por enquanto eu queria ser meu príncipe encantado. Muito auto-suficiente, de minha parte.
Sei que isso não funciona, pelo menos não por muito tempo, mas teria que servir para tapar as feridas latejantes. Elas pareciam ter mais vida que eu, ultimamente.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

2 comentários:
tudo acaba sendo nada .. duvide
Que bom ler isso, e saber que existem ainda jovens de caráter nobre como você. Agora, o seu prícipe encantado vai ter que continuar sendo o seu eu por um bom tempo. A menos que você atribue todas as qualidades nobres a aum indivíduo qualquer. Sei que não é isso que quer... não é mesmo?
Postar um comentário